Omar Talih


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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Pelos olhos de Pagu...

…Amores impossíveis…

Naquele dia, na sala 204, quando te vi eu sabia que nós iríamos muito além do que imaginávamos, mesmo sabendo que tu és quarenta anos mais velho. Eu tenho vinte, e pensei que nunca me interessaria por alguém da sua idade.
Só de te ouvir meu corpo todo treme, é teu olhar que já conhece a vida empiricamente e meninas do meu caráter. És homem, daqueles que só precisam estalar os dedos para levar qualquer mulher ao prazer absoluto. Encantei-me com a tua paixão pela arte, foi isso.
Eu adentrei no seu mundo, porque sempre te quis nos meus sonhos mais platônicos que apenas meus diários conheciam. Perguntei ao destino “Por que te conheci em tempos tão distantes?”, um desencontro amaldiçoado pelas nossas idades.
No entanto eu sou apenas a sua amante, e nada mais que isso. Um prazer de uma new generation que não tens com a tua mulher, sou a menina novinha em folha que te sacia. Sou a tua sorte, a tua garotinha.
-Fique comigo, para sempre.
-Não, nunca ficarei contigo para sempre.
-Mas você é a mulher que eu amo.
-Tu não me amas, tu me desejas. É diferente.
-Como sabes? Não sabes o que passa nesse coração de velho.
É por ser um coração de velho que eu sei muito bem o que se passa. E sei o que se passa no meu coração de garota também. Eu te desejo, mas não é eterno. Ele morrerá com o tempo. O desejo atingirá os orgasmos que eu desconhecia, mas assim como a tua pele vai ficando enrugada e desinteressante, meu desejo por ti vai a óbito.
Amarei apenas a tua alma, como amo o meu pai. E tu te culparás por algo que não tens culpa. Teus pensamentos ficarão mais teimosos, e teu olhar eternamente viciado. És um velho que me dá prazer, porém tens uma esposa que realmente te ama (lembre-se disso). Ela te conheceu jovem e te aceitará para sempre, como um fardo, com toda essa tua personalidade orgulhosa de si. Não serei eu a escolhida para interromper a sua vida, trazer mais lágrimas que já derramei, porque eu não quero isso.
Sou uma canalha, libidinosa, e te seduzi como uma meretriz. Tudo o que eu queria: teus dedos de experiência e tua boca cortês. Agora eu me despeço de ti, sem um sinal de culpa, e podes me amaldiçoar para o resto da sua vida, porque eu nunca mais voltarei para o senhor.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Chamas de minha vida...

Adentrei numa floresta, atraído pela aventura. Tinha em mente trilhar caminhos conhecidos e ficar a uma distancia segura, de maneira a poder voltar quando achasse conveniente. Senti-me inebriado com os cheiros, aromas e sabores, embriagado com as belezas, cachoeiras e cascatas,
remanso de águas límpidas e refrescantes. Tudo era envolvente e de repente vi-me perdido e sem saber que rumo tomar ou como retornar a trilha original. Nas matas a noite cai rápido e a escuridão e desconhecimento são assustadoras. Honestamente não sabia o que fazer. Já havia me aventurado tantas vezes por estas selvas e delas saia tranquilo, satisfeito com a viagem. Desta porém, encontrava-me envolto pela escuridão, pelos sons desconhecidos, pelo medo de uma situação poucas vezes antes vivenciadas. Noutras aventuras, percorria os caminhos deixando marcas que me guiariam o retorno e certo dos perigos de se adentrar muito profundamente nessas matas, ali somente retornava quando não mais havia odores e sinais deixados por mim.
Sei que no meio desta escuridão, acendi uma fogueira para iluminar e aquecer até que raiasse um novo dia e então encontrasse o norte de minha rota. As horas, quando se esta perdido, correm lentas, sem pressa e em seu passar mais me sentia perdido, aflito, pois, sei que os caminhos se fecham, tornando a volta mais difícil. A medida que a noite me envolvia, mais lenha colocava no fogo. O trepidar das labaredas e brasas voando no ar fizeram me esquecer de alguns cuidados e encantado com o espetáculo outra vez estava envolvido. De repente rompeu-se um incêndio na floresta e o controle fugiu de minhas mãos. Confesso que a experiência evitou um mal maior. Lutei para debelar o fogo, mas enquanto apagava um foco aqui, outro surgia mais a frente e sem perceber mais adentrava na floresta. Hoje, sinto-me em meio a um braseiro que aquece mas não queima, abundante água que não apaga este fogo e nem posso saciar a sede. As vezes vejo as chamas se extinguindo numa direção e me encaminho para lá, mas sempre há lenha nova a cair e dar nova vida ao fogarel. Vou quedar-me silencioso, ouvir o estalar das brasas pipocando ao fogo, sentir o calor que estas chamas me dão e quem sabe no silêncio da noite que me envolve possa uma estrela me guiar, mostrando nova trilha. Sei que os incêndios ao se apagarem deixam profundas marcas, mas renovam a vida, trazem novos cheiros, outros sabores. Sei que um dia me perderei novamente nessas matas que me atraem, pois sem suas cores, incêndios e calor não saberia viver.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

OS AMANTES

De repente alguém cantou:
"Vida de amante é assim mesmo,
Perto e distante, acertos e erros,
Chega a sangrar ficar ao lado seu sem te tocar"
Palavras poucas, sentidos muitos.
Vidas ocultas, desejos secretos.
Assim são os amantes; vidas duplas, mentiras e verdades.
Beijar uma boca querendo outra.
Ah! Mas não mude a condição.
É tirar panela quente, a esfriar no tempo e na rotina.
Os mistérios e segredos, chama eterna a manter a emoção.
Ah! Os amantes a chorar as escondidas.
Horas que se eternizam na espera, tempo que se esvai num abraço.
Mal se chega, a partida vem cobrar dos amantes a despedida.
Foi pouco, foi bom... sede insaciável.
Volta a vida, sentimentos a ocultar. Sangra o peito nesta hora.
Até breve, quem sabe. Até quando permitir o destino.
(música citada: Os amantes; Companhia do Samba)

Vermelho da paixão.

Muitas há. De todas as cores. Amo-as apaixonadamente.
Louras, morenas, douradas, com reflexos.
Cada qual com um brilho especial, com sua luz a atrair-nos; mariposas.
Mas, dentre todas uma desponta e me incendeia.
Quando a vejo, quedo-me estático, abobado até que se perca na multidão.
Ah! Ruivas... Ruivas, minha perdição.
Me encanto com o sol a afagar-lhe os cabelos, como a roubar um brilho seu.
Incendeia suas mechas, reluz nos olhos meus.
Ah! Ruivas, vermelho da paixão, sangue a pulsar mais forte, dispara o coração.
Queria dedicar-lhe um poema, embaralha-me os pensamentos.
Ruivas, com pequenas pintas pelo colo, pequenas nebulosas a enfeitar-lhe o rosto.
Fascinantes como o sol no entardecer... emudeço cada vez que desponta em meu caminho.
Ah! Ruivas...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O milagre do Pão

Um pouco de afeto, um olhar.
Um abraço apertado, coração em chamas.
Um pão a fazer.
Trabalho, trigo... ovos e água,
Fermento, sorrisos, sentimentos
Doce como açúcar, sal que tempera a vida.
Presença que aquece, medos que se esvaem.
Sovar a massa, moldar o pão. Forno quente.
Corpos colados no abraço, palavras desnecessárias.
Energia... troca justa.
Saudades...sonhos.
Tudo que se dá, quanto se recebe.
Pão, transformação... o fermento cresce,
Infinito o sentimento.
Ingredientes muitos, milagre único.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Auxilio do NERUDA.

Há momentos em nossa vida que perdemos as palavras e sentimos que se esvaem como areia por entre os dedos e tentamos em vão segurar... sentimos apenas o vento morno a espalhar o calor e dissipar presenças por outras paragens. Nessas horas em que me faltam as palavras busco socorro nos poetas. Hoje peço auxilio ao Neruda


XVII
Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
Ou flecha de cravos que propagam o fogo;
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro se si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira;
Senão deste modo em que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
(Pablo Neruda)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Viajem trivial

Passamos tanto por um mesmo caminho que, deixamos de prestar atenção a detalhes que deslumbram a outros.
Até o trem em que viajamos, nos parece trivial e não percebemos que em suas idas e vindas são outras pessoas a cruzar nosso caminho. Somos passageiros nessa viagem e um dia aportaremos em alguma estação.
Embora viajemos por um curto período, nos envolvemos numa rotina e agimos como se a viagem não fosse acabar nunca.
Com o tempo, nos abatemos e deixamos de cuidar do caminho. Esquecemos que embarcamos todos os dias e voltamos para a mesma estação.
Talvez nos cansamos da companhia que viaja ao nosso lado.
Temos medo de nos misturarmos na multidão e interagir com os que passam por nós.
Estamos ilhados no meio de tantos... solitários. Receamos o envolvimento e a troca que isto exige. Somos incapazes de sentir a necessidade alheia e compartilhar afetos. Egoístas, buscamos satisfazer apenas nossos desejos e sermos ouvidos em nossos lamentos.